Serei breve. Sou breve, sempre. Acostume-se.
Me senti acometida por uma grande nuvem de inspiração, qual eu tinha certeza de que poderia tirar de dentro tudo o que eu precisava - ou julgava precisar - para um bom manifesto. Mas, como qualquer outra boa nuvem, não sei se o que tenho em mãos é de fato o que eu procuro ou é apenas mais um pedaço denso disso que agora paira sobre minha cabeça para se esvaecer por entre meus dedos tão cedo quanto eu o alcance.
Ah! Minha cabeça... esqueci-me dela há muito tempo. Tudo é sempre tão distante e fosco, como que um transe infinito e desprovido de perspectiva toda e qualquer... e mesmo quando sinto algo em minha pele, parece tão rústico e passageiro! Quase fosse toda e qualquer dor do mundo apenas uma coçadela aqui ou acolá, algo que dentro de meio minuto já se faz tão distante da minha pele que eu poderia suportar por anos. Como um peixinho dourado enclausurado em aquário, em três segundos esquecendo-se de tudo e voltando a achar que aquela estância vale a pena - oh! por que não, que a vida vale a pena! - e se amarrando a uma vida miserável e de inutilidade tamanha; mas ainda assim, livre de culpa.
Culpa essa que tem me assolado igualmente a anos. Agora vejo... me embaraço daquilo que não é incumbido à mim ou à erros meus. Talvez porque eu ignore meus erros reais; é difícil ver o que se está fazendo quando se está cego para a vida. Entretanto, tenho pensado que, mesmo se os visse, agiria com desdém. O que é a vida sem erros? Sem decadência, sem desassossego? São os nossos passos tortos que nos fazem sentir o chão, são as pedra atiradas que nos fazem sentir o sangue efervescendo pelas vísceras; esse sangue maldito que só me faz humana quando acompanhado da dor que nos torna divinos! De passagem confesso - sem culpa e sem receio - que são os açoites errantes que nos fazem inúteis, só de considerar inexistência proporcionada por nossa estranha e orgulhosa pequeneza.
Não criarei pseudônimos. Não inventarei personagens.
Sou atriz de mim mesma, e há muito tempo me vejo - e aos outros - como ficções de uma mente coletiva que de mim não depende nem necessita. Para moldar a dor e vergonha em algo digerível, moldamos a nós mesmos, não obstante, fazendo em frangalhos de carne puída nossos íntimos apenas para manusear os sentimentos que não nos cabem. Entretanto, seria mentira dizer que nunca conseguimos nos reconstruir de fato? Uma vez em pedaços, nunca mais somos os mesmos. Nos transformamos a cada pequena ruptura, nos rompemos a cada pequena mudança; abrimos em nós mesmos um círculo infinito que cria em si um furacão e nos deglute lenta mas violentamente.
Eu-líricos são inúteis para mim. Não gerarei lirismo de um eu que eu não conheço e que para mim é tão estranho quanto esse mundo que conduzo limitada por rédeas frouxas presas em meu desejo e antolhos desviando-me os olhos, já fatigados de procurar por alguma luz que não crie sombras. Com que fins criar um pseudônimo quando me recuso estritamente a enxergar minha própria culpa? Por que me culpar por escrever meus dizeres se já me perco novamente em meu próprio pensamento? A nuvem me aliena e me condena a vagar por anos nesse ácido aquário de psiques enquanto a miséria de minha alma me retalha e me proíbe de sentir algo que não seja minha própria desgraça indolor.
- Mariana Cury para 'Grito Interno', O1 / O7 / O9.
Considerações finais; desculpe o texto esdrúxulo. Sem mais, tentarei fazer algo melhor em breve.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
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